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  • Rodrigo Cali

Mont Blanc, o Overlook Brasileiro

Atualizado: 18 de Jul de 2019

Quando, no meio do horror, falamos de um enorme hotel de paredes de madeira isolado no topo de uma montanha gelada, com vista para um grande vale verdejante e fama de assombrado duas coisas podem passar pela sua cabeça: O Stanley Hotel, empoleirado nas montanhas do Colorado, ou sua versão ficcionalizada por Stephen King em O Iluminado, o Overlook Hotel.



O que pouca gente sabe é que temos um hotel muito parecido aqui em terras tupiniquins, o Hotel Mont-Blanc, em Campos do Jordão. E ele não fica atrás dos dois hotéis gringos em nenhum quesito - salvo, talvez, o labirinto inventado por Kubrick.



Com 94 suítes, piscina coberta, academia, cozinha industrial, jardim com topiarias e diárias de até seis mil reais, é inegável que estamos falando de um hotel de altíssimo padrão, no Alto do Capivari, o bairro mais nobre, da mais alta cidade do país.

No limbo judicial desde que foi fechado, em cerca de 2007, pelo Ministério Público por ter sido construído em área imprópria, o Hotel vem reunindo estranhos relatos desde então, sejam portas que se abrem sozinhas, passando pela comida deixada para apodrecer na enorme cozinha, até gritos ouvidos por moradores próximos durante a noite.

Recanto conhecido para Bingo e outras formas de jogatina, rumores dizem que mais de uma festa de alta-sociedade no Hotel não teve um final feliz, com boatos de ligação dos donos com tráfico, máfia ou até cartéis. Te lembra alguma coisa?

Pois é, como a gente não podia deixar essa oportunidade passar, nós da Caligari fomos lá conferir o Hotel em primeira mão.


Foram cinco horas de uma estrada pitoresca e cheia de oportunidades pra fotos – muito parecida com a da minissérie O Iluminado (1997) – até chegarmos na cidade de Campos do Jordão que, com seus pouco mais de cinquenta mil habitantes, parece ter sido bem treinada para receber turistas – ainda que não turistas como nós.



Lá o GPS nos enviou numa trilha sinuosa montanha acima por uma rua ladeada por sítios, mansões e hotéis, em um bairro claramente habitado pela alta classe, em que as poucas pessoas por quem passamos nos olhavam com desconfiança – com certa razão.


A entrada decrépita do Hotel nem por isso era menos imponente, com seus portões duplos e guarita de pedra e concreto, num estilo que misturava displiscentemente o colonial com o suíço. Ainda havia no lugar uma atmosfera de pompa no meio da decadência, como se pudesse ser a casa ideal para um vampiro saído diretamente das páginas de Anne Rice.

Estávamos animados. O Hotel de perto era muito maior que o que esperávamos, ainda que não conseguíssemos ver suas alas principais, que se debruçam hoje inutilmente sobre os barrancos densamente florestados da Serra da Mantiqueira.


Não demorou muito para que moradores da enorme mansão do outro lado da rua viessem até o portão ver do que se tratava a pequena comoção. “Tão tirando foto”, disse uma voz feminina por trás do sólido portão de ferro, que reclamou com um longo e pesado rangido ao ser movimentado.



Se o dia não estivesse tão bonito, o ponto de vista que tínhamos teria saído direto dos primeiros 15 minutos de um filme de terror: as ervas-daninhas crescendo pelo concreto, pedaços de madeira apodrecida e arame farpado bloqueando a passagem, placas de entrada proibida e risco de morte… Tudo o que Hollywood chama de clichê estava lá – até mesmo uma janela aberta na sacada do último andar por onde tremulava no vento uma cortina branca encardida. 


Havia, entretanto um grande pedaço da cerca ausente, que parecia convidar para a entrada no jardim coberto de mato e entulho. E foi exatamente isso que fizemos.


Nossos passos ecoavam pelo mato alto, no momento o único som que podíamos escutar. Nenhum pássaro, nenhum animal, nem mesmo o barulho do vento nas copas das centenas árvores que pareciam nos observar de longe como velhas bruxas curiosas. Era como se o tempo houvesse parado e nós fôssemos as únicas coisas em movimento.

A sensação de paz do local quase paradisíaco (para os nossos padrões, pelo menos) se misturava com uma aura de mistério e medo.


Medo não de fatasmas, mas de infiltrações, apodrecimento e erosão que, ao longo de quase duas décadas, deixaram o local pouco seguro para ser visitado.



Cercados por pinheiros, araucárias e um céu profundamente azul, caminhamos por certo tempo pelo relvado do jardim, até ouvir um barulhoestranho vindo do lado esquerdo do campo.


Vozes, talvez, sussurradas, entrecortadas por guinchos e chiados. Feito o primeiro cara a morrer em um filme, resolvemos ir na direção das vozes conferir o que estava acontecendo. Mas diferentemente do cara, não anunciamos nossa presença com perguntas de “Tem alguém aí?” ou coisas do gênero. Se um assassino, fantasma ou demônio estivesse por perto, ele ficaria tão surpreso de nos encontrar quanto a gente ao vê-lo.


No caminho, passamos por um dos chalés mais isolados e pudemos ter uma noção do estado no interior do hotel: móveis, equipamentos e até mesmo uma pia empilhavam-se uns sobre os outros  por entre a poeira eteias de aranha. De uma forma torta, conseguimos entender por que a lenda urbana sobre o local diz que aparentemente todos haviam simplesmente levantado e saído de lá, deixando tudo como estava.



Mas o ruído se aproximava cada vez mais e podíamos agora distinguir várias vozes que entravam e saíam de sintonia como em um… rádio. Havia um rádio ligado em um dos chalés mais afastados.


Para decepção dos nossos instintos de fãs de terror, quem encontramos lá foi o segurança do local, que parecia tão surpreso com nossa presença quanto nós com a dele.

Percebendo seu desconforto e o desconfortável tom de medo (e não de ameaça) em seus olhos, preferimos nos desculpar pela intromissão e voltar para o carro – mas não sem antes estabelecermos que voltaríamos ali para ouvir as histórias escondidas sob a superfície e que davam àquele segurança mais apreensão que assertividade para nos receber em seus domínios.


E essa é uma promessa que pretendemos cumprir muito em breve!



E você, já esteve em um lugar supostamente assombrado? Como foi? Você conhece um lugar desses em que gostaria que nós fôssemos e documentássemos? Conte pra gente no nosso twitter!

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