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  • Anastácia Ottoni

Mal Nosso e o nosso veredito: impasse

Um espiritualista é avisado que um poder demoníaco deseja destruir a alma de sua filha. Temendo o veredito, ele contrata um assassino em série para tentar protegê-la.



Mal Nosso é um filme sádico que nos primeiros 10 minutos de tela já começa a usar a violência contra a mulher como fator de choque. Não é de hoje que o terror usa nossos corpos para satisfazer fantasias ou ser o martelo final para apontar quem é o vilão da história, como a querida Jéssica já pontuou perfeitamente neste post. O problema é quando isso é visto num filme nacional que está sendo ovacionado pela crítica internacional, como "um olhar diferente sobre o terror".


Confesso estar um pouco decepcionada com certas escolhas de Samuel Galli, roteirista e diretor da obra. Não é só a violência contra a mulher que incomoda, é o modo como a câmera registra os movimentos femininos. Um exemplo disso é a personagem Michele (Luara Pepita), filha do protagonista Arthur (Ademir Esteves). Ela é uma personagem apontada como casta e a câmera, contrariando o roteiro, opta por percorrer as pernas da personagem de riso inocente que vai completar 20 anos em alguns minutos dentro da história. Fiquei desconfortável e em certo momento cheguei a questionar se pudesse haver uma relação incestuosa entre os dois - tudo por conta de um jogo de câmera mal escolhido.



Como mulher que consome terror há mais de 25 anos eu já deveria ter me acostumado, certo? A verdade é que sim, eu me acostumei, e então fui desacostumando, e isso estava sendo uma ótima jornada. Um exemplo é o filme CAM, com uma protagonista que trabalha como profissional do sexo; independente disso, ele retrata a personagem como ser humano, não só como um corpo bonito, o que é bem irônico quando você pensa no roteiro do filme. E é aí que entra a questão: o envolvimento de uma mulher no roteiro e na direção fizeram essa GRANDE e simples diferença.





Mal Nosso é um bom filme, mas em vez de pontuar suas vitórias, estou aqui reflexiva pensando por que ainda somos usadas desta forma. Por que nem Michele foi poupada de ser sexualizada pelas câmeras, entende?


Guilherme e Gustavo Garbato criam uma trilha sonora que não poderia ser melhor para ditar a tensão das cenas e a maquiagem já conhecida de Rodrigo Aragão se mostra (sem surpresas) como um ponto altíssimo. A direção de Samuel Galli também é certeira em alguns aspectos, mesmo pecando no que já foi pontuado. Temos uma fotografia que dá sim orgulho desse filme de terror que podemos dizer que é nosso, brasileiro.


Mas ainda assim, esse filme me passou uma sensação semelhante a quando assisti A Casa que Jack Construiu, de Lars Von Trier. Ou seja...


Confira o trailer do filme que já está disponível na Netflix: aqui.

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