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  • Anastácia Ottoni

Horror Oriental e o medo que vive nos momentos de silêncio

Atualizado: Fev 20

Como a grande maioria das pessoas, conheci o horror oriental com O Chamado.



Me julgava a pica das galáxias por assistir todo tipo de filme de terror e (mesmo sentindo medo) manter o porte de uma pessoa com a maior coragem do universo. Convenhamos, pra alguém que assistiu Hellraiser aos 6 anos, alguns filmes realmente acabam não impactando da forma prevista. Lógico que sempre me divertia bastante por mais previsível a trama.


Tudo mudou quando assisti O Chamado.


Eu tinha 14 anos na época e o que eu sabia sobre o filme? Que tinha gerado muito burburinho do público. Que pessoas estavam sem dormir. Que uma fala icônica originou uma série de trotes, e até que o rosto das pessoas mortas ficava na tela tempo o suficiente para não sair da sua cabeça e trazer pesadelos.


Dadas as circunstâncias, pensei comigo mesma que eu tinha obrigação de assistir esse filme. Convidei amigas para a minha casa, fizemos pipoca e lá fomos nós conhecer essa tal de Samara para entender o que que estava pegando. Nessa noite, peguei meu colchão e engoli meu orgulho, fui sorrateiramente caminhando em direção ao quarto dos meus pais. Não conseguia encarar nenhum objeto que mostrasse meu reflexo. Mesmo com a TV e os espelhos do meu quarto cobertos, sentia que ainda havia alguma forma da Samara me atormentar; afinal, ela estava na minha cabeça, não estava?


Só depoooooois descobri que o filme que eu tinha assistido era remake. Uma versão mais acessível do original em japonês (Ringu). Pensei que não tinha como o mesmo filme me aterrorizar da mesma forma, mas "mal sabia ela...".



Na curiosidade decidi assistir Ringu, jurei de pé junto que não sentiria o mesmo medo, não teria o mesmo impacto, eu já conhecia a história - como diabos Samara (neste caso, Sadako) poderia me deixar tão assustada de novo? Ah pronto, dito e feito. O filme original era ainda mais assustador que o remake americano. O motivo? Fiquei muito tempo sem entender.


Passaram-se uns 4 anos e eis que me pego consumindo avidamente todos os tipos de terror asiático disponíveis. Eles me fascinavam pela trama, como sempre muito cultural, onde fantasmas tem sim escolhas, arrependimentos e, principalmente, a chance de uma redenção depois de uma série de erros (ou assassinatos, hehe). Eu nem acreditava tanto em fantasma assim, mas depois de inúmeros filmes abordando o tema de forma tão séria e respeitosa, passei a evitar olhar certos corredores com medo do que encontraria no canto dos olhos.


Agora resta a pergunta: o que podemos aprender com o horror asiático?


Tentando explicar de forma técnica, o roteiro do horror asiático é banhado de quartos vazios, momentos de silêncio e uma preocupação real em não contar a história às pressas. O horror é levado a sério e geralmente repleto de simbolismos. É válido mencionar que o cinema americano parece ter uma preocupação maior com a parte gráfica.


Desviando-se do padrão ocidental, filmes como Kairo (Shutter) e A Tale of Two Sisters parecem ter uma fórmula espetacular para desenvolver a história, assim como Pulse. Um filme com imagens tão bizarras e bem criadas dentro de uma ambientação assustadora que arrepia minha nuca só de lembrar.


Com essa enorme preocupação em construir uma atmosfera uncanny (o familiar que não é familiar), o horror asiático compreende bem que cada coisa tem seu tempo, e isso notavelmente faz diferença para os fãs do gênero que estão cada vez mais exigentes e em busca de histórias diferentes (vide A Bruxa, Hereditário e Midsommar). Alguns diretores, como James Wan (Insidious 1 & 2, além da franquia dos Warren), já perceberam que o horror precisa ser bem trabalhado e produzido para agradar tanto aos novos telespectadores, quanto ao público costumeiro.


Tudo o que eu queria dizer com esse artigo é: assista filmes de outros países, conheça novas culturas, aprenda o que é assustador em cultura x e y. A nossa bolha ocidental precisa ser quebrada porque a oriental é de foder.


Atenção: O curta abaixo possui cenas fortes, sendo recomendado para maiores de 18 anos.


Dirigido por Timo Tjahjanto e Gareth Huw Evans. Curta presente no filme V/H/S/2


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