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  • Rodrigo Cali

Antes de Bacurau: O Horror Sintético de Kleber Mendonça Filho

Para pessoas como eu, cuja dieta cinematográfica consiste quase inteiramente em horror, a clássica pergunta "qual o seu filme de terror favorito?" é muito difícil de ser respondida. Sendo assim, eu tendo a subvertê-la um pouquinho, boa parte das vezes. Mas não tanto assim.

É que, como gosto de ver como as pessoas reagem a minhas recomendações de filmes, em geral escolho responder essa pergunta com um curta-metragem, que posso mostrar no meu celular em menos de 20 minutos, em qualquer contexto.


Pra quem não conhece, o site Porta Curtas, é um recurso valioso nesse processo. O Porta Curtas é um projeto que visa não apenas trazer os melhores curta

s-metragens brasileiros para a internet, mas também formar um painel representativo da produção nacional de curtas, e foi nele que conheci aquele que tendo a indicar como meu filme de terror favorito, quase 15 anos atrás.


Vinil Verde (2004) é um soco no estômago, tanto do ponto de vista de roteiro quanto de produção.



Baseada em uma fábula russa, a história é narrada sobre uma sequência estática de fotos 35mm. Isso não apenas dá ao filme um ar de livro infantil sendo lido por um adulto, como também te coloca no lugar da criança, o que torna seu terror surrealista ainda mais efetivo.

Mas, para o meu prazer pesssoal, talvez a mais interessante característica desse curta é que ele foi escrito e dirigido por ninguém menos que o hoje aclamado Kléber Mendonça Filho, mais conhecido por Aquarius (2016) e pelo recente fenômeno crítico Bacurau (2019) — que, se você ainda não viu, deve se sentir envergonhado.


Muito do que você vai encontrar nesses longas já está presente em Vinil Verde, do comentário social subjacente que move a narrativa, passando pela pitada marcante de surrealismo, até o terror visto de forma naturalizada.


As pesadas referências culturais nordestinas e a assimilação de influências estrangeiras, tão evidentes em Bacurau, também marcam uma presença bem óbvia no curta.



O curta é o tipo de filme que fica, inquieto, na sua cabeça por um bom tempo, como um pássaro que se choca repetidamente contra uma vidraça, tentando fugir — ele requer certo tempo pra ser totalmente assimilado, enquanto oferece uma lição final, exatamente como a ideia original dos Contos de Fada.


Geralmente, depois de mostrar esse curta pra alguém, eu constumo segui-lo com uma história em quadrinhos da genial Laerte Coutinho, chamada Esfinge, publicada originalmente na revista Piauí, que usa o mesmo recurso narrativo pra falar de um tema muito parecido.

As duas obras, incrivelmente contemporâneas, são faces complementares da mesma moeda, como entradas opostas de um labirinto que levam ao mesmo centro.



Vinil Verde é, entretanto, hit or miss no sentido de que não costuma deixar a opinião de muita gente no intermédio: ou as pessoas adoram, ou não entendem como pode ser o meu filme de terror favorito.


De um jeito ou de outro, uma coisa é certa: eu tenho certeza que, depois de ver, você nunca mais vai querer usar luvas verdes.

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